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Por que o Bellatucci não é “apenas” mais uma cafeteria

Como nosso site tardou um pouco para ficar pronto e o nosso blog mais ainda, tem alguns assuntos que já são antigos, mas que valem a pena serem explanados aqui. Esse espaço foi feito justamente para isso, para conversamos com nossos amigos clientes, contar para eles o que gostaríamos de contar se eles estivessem aqui, no nosso café inclusivo, sentados em uma das nossas cadeiras azuis tomando um capuccino e comendo um pedaço de bolo.

São raros os clientes que saem daqui sem um bate papo com a gente. Alguns mais longos, outros mais breves, mas sempre tentamos conhecer um pouco da história de quem está nos visitando e vice-versa.

Vale o registro aqui também de parte da história do Bellatucci, o primeiro café inclusivo do Brasil fundado por uma empreendedora com Síndrome de Down. Parte porque nossa história é longa, envolve 25 anos de batalha por inclusão e autonomia. Luta a qual só quem é família conhece. Mas, passando um pouco esse filme para frente, chegamos no capítulo atual.

O sonho da Jéssica sempre foi ter um restaurante, mas o alto investimento e o ritmo frenético que o estabelecimento demanda não se encaixavam com as nossas reais expectativas . Sim, porque tudo foi pensado, planejado, estudado. Foram meses para o sonho se realizar, nada aconteceu da noite pro dia. Foi então que eu e meu marido (o sócio da Jéssica), após viajarmos pela América do Sul e termos conhecido inúmeros cafés charmosos, trouxemos essa ideia para a Jéssica.

Por que não abrir um café restô? Modelo muito comum em outros países e que ainda está ganhando espaço no Brasil. Não se trata de uma cafeteria, tipo Starbucks (bebidas à base de café, salgados e pessoas focadas em seu notebook trabalhando), é um espaço gastronômico onde as pessoas podem passar horas degustando quitutes e pratos que fogem do trivial, sem ver o tempo passar, porque se sentem acolhidas ali. É comum também esses espaços serem utilizados para eventos e encontros culturais.

E se o Bellatucci ainda não é assim, estamos caminhando na direção certa e a passos largos para isso. Até mesmo aqueles que por aqui passam buscando por um café rápido, acabam sentando, respirando, se acalmando e percebendo que é possível tomar um café com calma. Aqueles cinco minutinhos engolindo um café de pé pode se transformar em meia hora, tomando o mesmo café, sentado, batendo um papo, ouvindo uma boa música ou lendo uma revista. O café não muda, mas o ambiente e o estado de espírito sim e a bebida fica até mais gostosa.

Em três meses de funcionamento é exatamente esse tipo de feedback que estamos recebendo. Clientes gratos por encontrarem um oásis em meio a selva de pedra. Felizes em receber um atendimento caloroso, humanizado, olho no olho, sinceridade no “seja bem-vindo”. Clientes que entram para tomar um cafezinho e acabam almoçando, comendo sobremesa e tomando outro cafezinho rs. Clientes que se sentem acolhidos em nosso espaço, pois percebem o amor que ali permeia.

Todo dia temos uma surpresa boa. Seja uma palavra, uma visita, uma avaliação ou comentário nas redes sociais. O mais importante é que sentimos que são elogios sinceros. Não tem condescendência. Os elogios são para o nosso espaço, o nosso serviço, o nosso atendimento e o nosso cardápio. Não é porque a Jéssica, o Phillipe, a Priscila, a Bárbara ou a Jaque são “bonitinhos”. É porque eles estão fazendo o trabalho deles corretamente. É porque o Bellatucci está dando oportunidade para eles trabalharem e aprenderem com erros e acertos.

O café não saiu direito? Acontece, todo mundo erra, faz outro! O bolo queimou? Bate uma massa nova. O nhoque ficou duro? Tenta de novo! Aqui todo mundo é aprendiz. Não tem um chef nos bastidores fazendo tudo. Quem faz é a Jéssica – uma cozinheira amadora que sonha em ser uma chef, mas ainda não é – com a ajuda dos seus amigos e da sua mãe, que sempre cozinhou só para sua família. É tudo de verdade. E é esse coração aberto, transparência e essa casa de vidro que criamos, que ganha a empatia das pessoas. Percebe a diferença entre empatia e condescendência?

Aliás, esse último exemplo do nhoque, me faz lembrar de um caso real. Um dia, uma cliente veio aqui e o nhoque de mandioquinha não estava no ponto certo. Com a sinceridade que tanto prezamos e pedimos aos nossos clientes, ela nos contou que estava indo embora insatisfeita. A Jéssica, como profissional e não como uma coadjuvante da história, se desculpou pelo seu erro. Porque foi erro dela mesmo. Ela que faz, ela que errou. E ela assume. Ponto. Aliás, essa é uma das coisas que prezamos por aqui, não temos que poupá-los. Se queremos inclusão, comecemos de casa (ou do trabalho) a tratá-los igualmente.

Depois do ocorrido, a Jéssica passou o dia todo chateada e inconformada com a falha. Quando chegou a noite em sua casa, ela tomou a iniciativa de preparar uma nova massa. No dia seguinte, quando chegou o horário do almoço, ela estava lá, na porta do consultório onde nossa cliente trabalha, com um prato de nhoque em mãos, dessa vez bem feito, e um novo pedido de desculpas, mas dessa vez não vinha acompanhado de desapontamento e sim de orgulho, por ter se superado.

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